23 de julho de 2026
Comunicação e planejamento constroem carreira: insights do Hacking de Carreira (WoMakersCode)
Existe uma ideia bastante comum na tecnologia: se eu for tecnicamente boa, meu trabalho falará por mim.
Mas será mesmo?
Código não explica sozinho as decisões que tomamos. Uma boa entrega não conta automaticamente a história do impacto que gerou. E ninguém deveria precisar adivinhar quais são os nossos próximos objetivos profissionais.
Foi justamente sobre isso que comecei a refletir depois de participar do evento online Hacking de Carreira: Comunicação, Influência e Crescimento, promovido pela WoMakersCode.
Este artigo foi produzido a partir dos conteúdos e aprendizados compartilhados durante as palestras de Geise Martins, sobre o poder da comunicação, e Damiana Costa, sobre PDI e protagonismo profissional. Minha intenção aqui é organizar e disseminar alguns desses conhecimentos para que eles não terminem junto com o evento.
Porque foram duas palestras sobre assuntos diferentes, mas que chegaram praticamente ao mesmo lugar:
não basta desenvolver a carreira. Precisamos aprender a conduzi-la.
Um pouco sobre a WoMakersCode
A WoMakersCode é uma organização que trabalha para ampliar a presença e o desenvolvimento de mulheres na tecnologia por meio de educação, comunidade, empregabilidade e formação profissional. A iniciativa foi fundada por Cynthia Zanoni, uma das principais responsáveis por transformar a comunidade em um espaço de conexão e desenvolvimento para mulheres que estão entrando ou crescendo na área.
E foi justamente dentro dessa proposta que aconteceu o Hacking de Carreira.
1. Comunicação também é competência técnica de carreira
A palestra de Geise Martins começou desconstruindo uma ideia importante: comunicação não deveria ser tratada apenas como uma soft skill secundária.
Em determinados momentos da carreira, ela se transforma em uma verdadeira power skill.
Uma frase apresentada durante a palestra resume muito bem isso:
“Quem codifica constrói o produto. Quem se comunica constrói a carreira.”
Quanto mais avançamos profissionalmente, menos somos avaliadas somente pela nossa capacidade de executar.
Precisamos explicar decisões, apresentar resultados, negociar prioridades, discordar tecnicamente, receber feedback, influenciar pessoas e defender propostas.
A habilidade técnica pode colocar você na sala.
A comunicação ajuda você a ocupar essa sala.
Comunicação estratégica começa antes da reunião
Um dos ensinamentos mais práticos foi a importância da preparação.
Antes de uma reunião importante, organize seus argumentos, conheça os dados e pense nos pontos que precisa defender.
E observe também como você introduz suas próprias ideias.
Em vez de:
“Desculpa, só queria acrescentar uma coisa…”
Experimente:
“Quero adicionar um ponto.”
Em vez de:
“Eu acho que talvez…”
Use, quando houver evidências:
“Com base nos dados, a solução é…”
Outras construções apresentadas foram:
- “Tenho uma dúvida técnica sobre…”
- “Proponho a seguinte abordagem…”
- “A análise mostra que…”
São pequenas mudanças, mas elas retiram da comunicação aquela necessidade constante de pedir licença para existir.
Assertividade não é agressividade.
É comunicar uma ideia com clareza, contexto e segurança.
2. Saber fazer uma pausa também é comunicação
Comunicação estratégica não acontece apenas quando estamos tranquilas.
Uma pergunta inesperada, uma interrupção ou um questionamento técnico podem provocar reações físicas: coração acelerado, voz trêmula, sensação de calor.
Reconhecer esses sinais é importante porque cria espaço entre reagir e responder.
A orientação discutida foi simples: alguns segundos de pausa, uma respiração mais profunda ou até beber água podem dar tempo para estruturar melhor uma resposta.
O silêncio também comunica.
Uma pausa estratégica pode demonstrar controle, não fraqueza.
E essa inteligência emocional se estende aos feedbacks.
Em tecnologia, nossas soluções serão questionadas. Código será revisado. Arquiteturas serão discutidas. Uma abordagem que levou horas para ser construída pode ser descartada.
Mas existe uma separação essencial:
feedback técnico não é ataque pessoal.
Sua solução técnica pode estar errada sem que isso determine o seu valor profissional.
3. Comunicação também significa estabelecer limites
Outro ponto importante foi o poder estratégico do “não”.
Saber negociar prazos, questionar prioridades, discordar de uma decisão e estabelecer limites também faz parte de uma comunicação madura.
Da mesma forma, precisamos aprender a recuperar nosso espaço quando somos interrompidas:
“Quero concluir meu raciocínio.”
Simples.
Sem agressividade e sem precisar desaparecer da conversa.
Porque comunicação estratégica não significa falar o tempo inteiro.
Significa saber quando falar, o que comunicar e como sustentar aquilo que está sendo dito.
E isso nos leva diretamente à segunda palestra.
Porque aprender a comunicar onde você quer chegar exige primeiro responder:
onde você quer chegar?
4. PDI: pare de esperar alguém planejar sua carreira
A palestra de Damiana Costa trouxe o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) como ferramenta de protagonismo profissional.
E uma das provocações que mais me marcou foi esta:
trabalhar duro não é suficiente. É preciso trabalhar na direção certa.
É muito fácil cair na armadilha de fazer curso atrás de curso, aprender várias tecnologias e esperar que reconhecimento e crescimento apareçam naturalmente.
Mas desenvolvimento sem direção pode virar apenas acúmulo de conhecimento.
O PDI entra justamente para transformar crescimento em estratégia.
Ele pode ser entendido como um mapa de navegação da carreira, construído a partir de três perguntas:
Onde estou hoje?
Faça um diagnóstico das suas competências atuais considerando:
- Hard skills: linguagens, frameworks e ferramentas;
- Power/soft skills: comunicação, colaboração e resolução de problemas;
- Experiências: aquilo que você já construiu e colocou em prática;
- Networking: quem faz parte da sua rede e com quem você aprende.
O diagnóstico precisa representar sua realidade atual, não a profissional que você gostaria de já ser.
Onde quero chegar?
Aqui entra uma diferença enorme entre desejo e objetivo.
“Quero crescer em tecnologia.”
É amplo demais.
Compare com:
“Quero conquistar minha primeira vaga Backend em seis meses.”
Agora existe direção e prazo.
Como foi colocado durante a palestra:
“Objetivo sem prazo é só um desejo.”
Como diminuo essa distância?
Depois de identificar o ponto atual e o destino, precisamos descobrir o que existe entre os dois.
Quais competências faltam?
O que preciso aprender?
Como vou aprender?
Como colocarei isso em prática?
E como saberei que evoluí?
É aí que o PDI deixa de ser documento e começa a virar plano de ação.
5. Faça menos cursos e construa mais experiências
Esse talvez tenha sido um dos pontos mais necessários da palestra.
Foi apresentada a estratégia 70-20-10 como referência para pensar o desenvolvimento:
- 70% — prática: projetos, desafios, voluntariado e open source.
- 20% — troca: comunidades, mentorias, networking e feedback.
- 10% — estudo: cursos, livros, certificações e documentação.
Mais importante do que tratar esses números como uma fórmula rígida é entender a mensagem por trás deles:
Curso sozinho não transforma carreira.
Principalmente em tecnologia, precisamos transformar conhecimento em experiência.
Não basta estudar uma API REST. Construa uma.
Não basta aprender Git. Trabalhe em projetos versionados.
Não basta estudar comunicação. Apresente suas ideias.
Não basta aprender arquitetura. Tome decisões arquiteturais e aprenda a justificá-las.
Conhecimento ganha valor profissional quando conseguimos aplicá-lo.
6. Meta de resultado não é meta de processo
Outra distinção importante apresentada foi entre aquilo que queremos alcançar e aquilo que precisamos fazer.
“Conseguir um emprego” é uma meta de resultado.
Mas existem fatores nessa decisão que não controlamos.
Já ações como estudar regularmente, construir projetos, participar de comunidades, pedir feedback e atualizar o portfólio estão muito mais próximas do nosso controle.
Por isso, um bom PDI precisa transformar:
Objetivo → competências necessárias → plano de ação → execução → resultado mensurável.
Ferramentas como o 5W2H podem ajudar:
- What: o que quero alcançar?
- Why: por que quero isso?
- Who: quem está envolvido?
- When: quando quero alcançar?
- Where: onde?
- How: como farei?
- How much: quanto vou investir de tempo ou recursos?
“Quero aprender Java” é intenção.
Definir o que estudar, por quê, durante quanto tempo, quais projetos construir e como medir a evolução começa a formar um plano.
7. Seu PDI precisa mudar junto com você
Talvez a metáfora mais interessante da apresentação tenha sido pensar no PDI como um GPS.
Você define o destino e começa a percorrer a rota.
Mas aparecem desvios.
Você aprende coisas novas.
Descobre outras possibilidades.
Uma oportunidade inesperada surge.
Ou simplesmente percebe que aquele destino já não faz sentido.
Então recalcula.
Mudar de objetivo não significa necessariamente fracassar. Pode significar amadurecer.
A recomendação apresentada foi revisar o PDI periodicamente, por exemplo a cada três meses, fazendo quatro perguntas:
- O que evoluiu?
- O que aprendi?
- Meu objetivo ainda faz sentido?
- O que preciso ajustar?
O plano existe para servir à sua carreira.
Não para aprisioná-la.
Comunicação + direção = protagonismo
Foi aqui que, para mim, as duas palestras se encontraram.
Geise falou sobre construir voz.
Damiana falou sobre construir direção.
Porque não adianta ter um PDI perfeito se ninguém conhece suas ambições, você não pede feedback, não apresenta suas contribuições e não consegue defender suas ideias.
Da mesma forma, comunicar-se muito bem sem saber onde quer chegar pode gerar movimento sem direção.
Protagonismo profissional aparece quando conseguimos conectar as duas coisas:
entender onde estamos → decidir onde queremos chegar → desenvolver as competências necessárias → colocar conhecimento em prática → comunicar nosso valor → pedir feedback → medir a evolução → recalcular a rota.
Talvez esse seja o principal aprendizado que trouxe do Hacking de Carreira: Comunicação, Influência e Crescimento.
Carreira não é apenas sobre trabalhar mais.
Também não é sobre acumular cursos esperando que, em algum momento, alguém perceba que estamos prontas.
É sobre desenvolver competência, construir experiências, criar relações, comunicar aquilo que fazemos e assumir responsabilidade pelas escolhas que estão nos levando ao próximo passo.
No fim, ficaram três perguntas que acho que valem muito mais do que qualquer fórmula pronta:
Onde estou hoje?
Onde quero chegar?
E o que estou fazendo, de forma concreta, para diminuir essa distância?
Se você ainda não consegue responder às três, talvez já tenha encontrado um ótimo ponto para começar.